O Dia das Compras na Net volta a mobilizar centenas de lojas e consumidores à volta do ecrã, num ritual já familiar de descontos e oportunidades. Mas em 2025, com um comércio eletrónico cada vez mais maduro, vale a pena perguntar: o que é que este dia realmente mede: as vendas ou a confiança?
Há mais de vinte anos que compramos online, mas continua a existir um certo fascínio coletivo por dias de grandes descontos. O Dia das Compras na Net é um bom exemplo disso: durante 24 horas, centenas de lojas online portuguesas unem-se numa celebração das compras digitais, com o objetivo de reforçar a confiança dos consumidores e estimular o comércio eletrónico nacional.
A iniciativa tem todo o mérito e história. Mas, em 2025, quando a maioria dos portugueses já compra online com naturalidade, vale a pena perguntar: ainda precisamos de um “dia especial” para isso?
O comércio eletrónico português nunca esteve tão forte. Segundo o Barómetro E-Shopper 2025, da Geopost, 75% dos portugueses já realizam compras online e 46% compram de forma regular, números que superam os valores pré-pandemia e confirmam o dinamismo do setor. A verdade é que o comércio eletrónico deixou de ser território exclusivo das gerações mais novas. Está na rotina de milhões de pessoas que fazem compras entre reuniões, nos transportes ou à noite, no sofá.
Por isso, talvez o grande desafio do e-commerce já não seja convencer alguém a comprar online, mas sim fazer com que volte à loja onde fez a sua última encomenda. O sucesso não está apenas em gerar tráfego num dia de campanhas, está em construir uma relação sólida nos restantes 364 dias do ano.

O problema não está nas vendas, está na relação
Durante o Dia das Compras na Net, as campanhas multiplicam-se, o tráfego dispara e as vendas crescem. Mas o que acontece no dia seguinte? O sucesso de uma loja online não se mede num pico de 24 horas, mede-se pela confiança que constrói ao longo do tempo.
As pessoas já não querem apenas bons preços. Querem sentir que a marca as compreende, que lhes simplifica a vida e que está realmente presente quando algo falha. Querem rapidez, transparência e um serviço pós-venda eficaz, sem surpresas. O consumidor português amadureceu e já não se deixa encantar apenas por descontos. Hoje, quer relações consistentes e marcas com propósito.
Do evento à cultura digital
O digital não é um canal, é uma cultura. E uma cultura constrói-se com consistência, não apenas com campanhas. Por isso, o Dia das Compras na Net devia servir menos para celebrar descontos e mais para avaliar a maturidade digital das empresas portuguesas. Mostra quem está preparado para competir com os grandes e quem ainda trata o online como uma montra temporária.
Mais do que baixar preços, o verdadeiro desafio é aumentar o valor percebido. Porque no fim de contas, um desconto atrai, mas é a confiança que faz o cliente voltar.
E é isso que distingue as marcas que sobrevivem das que apenas aparecem quando há promoções.
Artigo publicado em 24notícias.sapo.pt


