Não é tradição portuguesa, não tem raízes na nossa cultura e, mesmo assim, o Halloween aparece todos os anos, pontualmente, no calendário das equipas de Marketing.
Durante uns dias, o laranja e o preto invadem montras, banners e feeds. As campanhas ganham nomes “assustadores” e as marcas disputam quem cria o trocadilho mais “criativo”.
Mas a verdade é que já ninguém se assusta!
O Halloween transformou-se num ritual automático, mais um tema sazonal que entra no planeamento sem que ninguém pergunte “porquê”. O resultado é quase sempre o mesmo: um desfile de campanhas previsíveis, com fantasmas que já vimos e bruxas que já não dizem nada.
Deixou de ser celebração para se tornar pretexto.
Pretexto, não propósito
Pretexto para lançar uma campanha promocional, preencher o plano comercial e mostrar que a marca “está viva”. Mas essa corrida pela relevância acaba, ironicamente, por mostrar o contrário: muitas marcas estão vivas no feed, mas mortas por dentro.

Hoje, já não há campanhas de Halloween. Há campanhas de medo. Medo de não estar presente. Medo de não ser lembrado. Medo de parecer ultrapassado.
O marketing vive refém do FOMO (Fear Of Missing Out) e nesse processo perdeu o maior poder que alguma vez teve: o poder de dizer não.
Dizer não a um tema que não faz sentido. Dizer não a uma publicação que não acrescenta nada. Dizer não a uma ação feita apenas porque os outros também fizeram.
O verdadeiro susto
O verdadeiro susto já não está nas campanhas, está na pressa.
Vivemos obcecados com o instante, com o “publicar já”, o “entrar na tendência” e o “não ficar para trás”. É verdade que o digital nos tornou mais ágeis, mas também nos tornou ansiosos. Falta pausa. Falta reflexão. Falta aquela pergunta simples, mas essencial: faz sentido para a marca?
Todos nós, marketeers, sabemos que comunicar não é estar em todo o lado. É estar no sítio certo, no momento certo, com uma mensagem que realmente vale a pena ouvir.
O Halloween ainda podia ser brilhante
O Halloween é visual, é emocional, é teatral. Tem espaço para contar boas histórias, para brincar com o medo, com o inesperado e com o absurdo. Mas na pressa de o transformar em mais um dia de descontos, as marcas esqueceram-se do essencial: surpreender. Surpreender devia ser o instinto base de qualquer criativo. Provocar emoção. Gerar empatia. Deixar memória. É isso que separa uma boa campanha de mais uma publicação irrelevante.
E se há algo que o Halloween podia ensinar ao Marketing, era precisamente isso: a arte de provocar. De acordar quem está a ver. De desafiar o previsível.
O novo terror do Marketing
Talvez o Halloween já não meta medo porque o domesticámos. Já não há sombras, só códigos promocionais. Já não há sustos, só posts iguais, pensados à pressa para preencher espaço. O verdadeiro terror, em 2025, é perceber que o Marketing está a perder o dom de arrepiar porque esqueceu a alma que o fazia humano.
E isso, mais do que qualquer abóbora vazia, devia ser o susto do ano.
Artigo publicado em marketeer.sapo.pt


