
Este relatório de 2026 da PYMNTS Intelligence/Visa analisa como os retalhistas estão a adaptar as suas infraestruturas para a era do comércio agêntico
Todos já experimentámos a mesma frustração: o carrinho está cheio, o desejo de compra é elevado, mas um checkout lento e burocrático acaba por ditar o abandono. Esta fricção, outrora um mero incómodo operacional, tornou-se o campo de batalha central para a sobrevivência no comércio moderno.
O novo relatório “Global Digital Shopping Index 2026“, desenvolvido pela PYMNTS Intelligence em colaboração com a Visa, revela que o retalho atravessa uma metamorfose invisível, mas radical. A finalização da compra está a deixar de ser um processo mecânico para se tornar uma camada estratégica de inteligência.
Aqui estão as cinco revelações que estão a redefinir o setor e a ditar a obsolescência programada da infraestrutura tradicional.
1. A Vitória Esmagadora das Aplicações Próprias
Se restavam dúvidas sobre onde reside a lealdade do consumidor, os dados dissiparam-nas. No entanto, o sucesso não é universal: entre os retalhistas que já operam através de aplicações móveis próprias, 57% registaram um aumento nas vendas por esse canal, superando websites e lojas físicas.

A razão desta hegemonia não é apenas a conveniência, mas a superioridade técnica. As apps consolidaram-se como o “centro de controlo” da experiência do cliente, oferecendo uma fluidez que o browser raramente alcança. A prova reside na integração de tecnologias de fricção reduzida: 42% das aplicações já disponibilizam biometria (como Face ID) para concluir a compra, comparativamente a apenas 26% nos websites. Ao dominar as credenciais guardadas e o checkout com um clique, as apps estão a transformar o ato de pagar num evento quase instantâneo.

2. A Crise de Confiança no Checkout Atual
Apesar do otimismo digital, vivemos um momento de introspeção profunda na indústria. O relatório indica que 87% dos retalhistas admitem abertamente que a sua experiência de finalização de compra necessita de melhorias. Existe um receio palpável de que os sistemas atuais se tornem fardos tecnológicos num futuro imediato.
“Dados do Global Digital Shopping Index 2026 indicam que 59% dos retalhistas temem que a sua tecnologia de pagamentos atual deixe de responder às exigências do mercado em apenas três anos.”
Este dado sublinha que a modernização não é um projeto estático, mas um estado de evolução contínua para evitar que os hiatos de hoje se tornem desvantagens competitivas fatais amanhã.


3. O Preço como Ferramenta de Direcionamento de Pagamento
Uma das tendências mais pragmáticas de 2026 é a gestão ativa da economia dos pagamentos. Os retalhistas deixaram de aceitar passivamente os custos de transação; agora, 52% utilizam o preço para influenciar a escolha do método de pagamento do consumidor.
Esta “engenharia de pagamentos” utiliza descontos para métodos de baixo custo ou sobretaxas para opções mais onerosas. O Brasil lidera esta prática (55%), utilizando-a como uma alavanca estratégica para mitigar o impacto das taxas de cartões e promover métodos instantâneos. Em contraste, os EUA mantêm-se mais conservadores. Para o estrategista, isto sinaliza que o checkout é agora uma ferramenta ativa de gestão de margem e rentabilidade.

4. A Ascensão dos Agentes de IA (Commerce Agentic)
Entrámos na era do Commerce Agentic, onde agentes de IA pesquisam, comparam e transacionam em nome dos humanos. Embora 49% dos retalhistas vejam nesta transição um vetor de crescimento estratégico, existe uma perigosa “lacuna de visibilidade” que ameaça o setor.
Atualmente, apenas 23% dos retalhistas conseguem identificar com clareza o tráfego e as compras geradas por inteligência artificial. Mais grave ainda: apenas 15% possuem dados estruturados prontos para serem “lidos” por estes agentes. Sem dados legíveis por máquinas, as marcas arriscam-se a ficar invisíveis para os novos decisores digitais, perdendo vendas para concorrentes tecnicamente mais preparados.


5. O Paradoxo da Fraude
Numa reviravolta contraintuitiva, os incidentes de fraude recuaram 9 pontos percentuais face a 2024. Contudo, a vigilância atingiu níveis recorde: 60% dos retalhistas manifestam um interesse elevado em proteção antifraude ainda mais robusta.
Este paradoxo revela uma mudança de mentalidade: o retalho tornou-se preventivo. A redução dos incidentes não gera complacência porque a ameaça tornou-se mais sofisticada. Com a automação e a IA, os ataques podem agora ocorrer em escalas massivas, exigindo sistemas de defesa que identifiquem, em milissegundos, se o comprador é um agente legítimo ou um algoritmo malicioso.
O Caminho para o “Agent-Ready”
O checkout já não é o ponto final da jornada; é a camada estratégica que define a conversão e a fidelização. Tal como o tap-to-pay se tornou o padrão de simplicidade no mundo físico, os agentes de IA serão o padrão de eficiência no digital.
A jornada para 2026 exige que as empresas abandonem infraestruturas rígidas e se preparem para um ecossistema onde a visibilidade de dados e a flexibilidade de pagamentos são os pilares centrais.
A questão para os líderes de negócio é agora inevitável:
“A sua infraestrutura de pagamentos atual sobreviveria se um robô decidisse comprar na sua loja amanhã?”


