
O mais recente relatório da Nuvemshop mostra um mercado que continua a crescer, mas onde uma parte significativa desse crescimento se perde ao longo da jornada.
A grande mudança está na mentalidade: crescer deixou de ser automático e passou a depender da capacidade de converter, reter e operar com eficiência.
O NuvemCommerce 2026 é um daqueles relatórios que vale a pena ler com atenção, não apenas pelos números, mas pelo tipo de leitura que permite fazer sobre o mercado.
Baseado em dados reais de mais de 1.500 lojistas e na análise de milhares de lojas ativas, o estudo oferece uma visão concreta sobre como o e-commerce está a funcionar hoje e onde estão os principais bloqueios ao crescimento.
Mais do que um documento informativo, é um retrato de um setor que entrou numa fase de maturidade.
O e-commerce já não está numa fase de experimentação. Está numa fase de execução.
Crescimento continua… mas já não resolve tudo
Os números continuam fortes. O e-commerce brasileiro atingiu cerca de 235 mil milhões de reais em 2025, com um crescimento de aproximadamente 15% face ao ano anterior e uma base de 94 milhões de consumidores ativos.


Esse crescimento traduz-se também em escala operacional:
– 435 milhões de pedidos online.
– ticket médio de R$ 539 (+9,5%).
– mais de 400% de crescimento acumulado desde 2020.
Mas há um detalhe que muda tudo: o próprio relatório fala num mercado que está a amadurecer em qualidade, não apenas em volume.
Crescer continua a ser possível, mas já não garante eficiência nem rentabilidade.
O verdadeiro bloqueio está na conversão
Durante muito tempo, o foco esteve em trazer mais tráfego. Hoje, o principal desafio está em transformar esse tráfego em vendas.
A baixa taxa de conversão surge como o principal problema identificado pelos lojistas, acompanhada por baixo tráfego e dificuldade em gerar vendas orgânicas.
Quando olhamos para os dados de comportamento, o problema torna-se ainda mais evidente:
– abandono médio entre 77% e 80%.
– principais motivos:
→ 57% apontam portes de envio elevados.
→ 35% prazos de entrega longos.
→ 22% loja virtual desconhecida.
→ 19% excesso de pop-ups e anúncios.
→ 18% falta de informação sobre a empresa.
→ 14% política de troca e devolução confusa.
→ 14% site lento.

Além disso, a própria base da Nuvemshop mostra diferenças claras de maturidade:
– taxa de conversão de 1,17% em operações mais desenvolvidas.
– taxa de conversão média de 0,75% em lojas até R$ 100 mil/mês.
O maior desperdício no e-commerce acontece entre a intenção e a compra.
Menos fricção, mais vendas
Um dos sinais mais claros desta evolução está nos pagamentos. O Pix tornou-se o principal método no e-commerce brasileiro, ao representar cerca de 49% das transações, ultrapassando o cartão de crédito (45%). Ao mesmo tempo, o boleto bancário caiu para menos de 1%, aproximando-se da irrelevância.

Este comportamento revela uma preferência clara por experiências rápidas e sem fricção. E isso liga diretamente aos dados de abandono. Quando o processo é lento, complexo ou pouco transparente, a compra simplesmente não acontece.
A conversão hoje depende diretamente da simplicidade da experiência.
O e-commerce está a tornar-se mais humano
O crescimento do WhatsApp como canal de vendas é um dos sinais mais fortes desta mudança.
– 73% dos lojistas utilizam WhatsApp como canal complementar.
– apenas 13% dependem exclusivamente da loja online.
– 60% dos consumidores preferem falar com a marca antes de comprar.

Mais do que um canal, isto representa uma mudança de comportamento.
O funil deixa de ser apenas navegação e passa a incluir interação. A compra deixa de ser totalmente autónoma e passa a integrar momentos de validação e confiança.
E essa tendência ganha ainda mais força quando olhamos para o futuro:
– 50% dos lojistas apontam o conversational commerce como tendência principal.
– 46% apostam no social commerce.
– 40% em agentes de inteligência artificial.

O e-commerce está a evoluir de uma lógica de navegação para uma lógica de relação.
D2C: onde o negócio realmente acontece
À medida que os negócios crescem, a loja própria ganha protagonismo.
Nos e-commerces em expansão:
– 69% têm a loja própria como principal canal.
– 30% dependem mais de marketplaces.
Além disso:
– 51% dos consumidores preferem comprar na loja da marca quando preço e prazo são iguais.
– quase 70% confiam mais na loja própria para garantir autenticidade.
Os marketplaces continuam relevantes, mas assumem um papel mais tático.
A retenção continua subvalorizada
O relatório mostra um mercado ainda muito focado na aquisição, mesmo quando os dados apontam para uma crescente pressão sobre custos e margens.
Entre os principais desafios dos lojistas surgem:
– alto custo de marketing.
– dificuldade em reinvestir no negócio.
– necessidade de otimizar processos e rentabilidade.
Este contexto torna a retenção uma alavanca cada vez mais relevante, ainda que subexplorada.
Num cenário de custos elevados, crescer sem retenção torna-se cada vez mais difícil.
IA: todos usam, poucos dominam
A adoção de inteligência artificial já é significativa:
– 72% dos lojistas utilizam IA.
– apenas 4% têm conhecimento avançado.
– 80% acreditam que terá impacto relevante.

Além disso, a utilização está a evoluir:
– hoje: foco em catálogo (descrições, imagens).
– amanhã: foco em marketing, serviço de apoio ao cliente e dados.
Isto mostra que estamos numa fase intermédia: adoção generalizada, mas maturidade ainda baixa.
O diferencial competitivo vai estar na profundidade de utilização da IA.
Menos atalhos, mais controlo
Outro sinal de maturidade está na estrutura dos negócios.
– dropshipping caiu 28%.
– mais de 62% dos e-commerces em expansão investem em produção própria.
Este movimento está diretamente ligado à necessidade de diferenciação e controlo da margem.

Num mercado saturado, vender produtos indiferenciados torna-se cada vez menos sustentável.
Controlar o produto e a operação tornou-se essencial para competir.
Tendências a acompanhar de perto
O relatório também aponta algumas prioridades claras para os próximos anos:
- 49% dos lojistas querem investir em vídeo.
- 47% em atendimento e chatbots.
- 39% em avaliações de clientes.

O e-commerce está a tornar-se mais dinâmico, mais interativo e mais orientado para conteúdo.
O que isto significa para Portugal
Apesar das diferenças entre mercados, os padrões são claros e facilmente transferíveis.
O e-commerce está a tornar-se:
– mais exigente em termos de eficiência.
– mais dependente de retenção.
– mais orientado para experiência.
Portugal segue esta trajetória, ainda que com algum atraso.
Quem antecipar estas mudanças ganha vantagem num mercado que também está a maturar.
O comércio eletrónico deixou de ser um jogo óbvio
O que este relatório mostra não é apenas a evolução de um mercado. É uma mudança na forma como o e-commerce tem de ser pensado.
Durante anos, havia uma certa previsibilidade no crescimento digital. Investir em tráfego e escalar campanhas era, muitas vezes, suficiente para garantir resultados. Hoje, essa lógica começa a falhar. O consumidor tornou-se mais exigente, mais informado e mais seletivo. Já não compra apenas porque encontrou um produto. Compra quando confia, quando a experiência é fluida e quando sente que está a tomar uma boa decisão.
Do lado das empresas, o cenário também mudou. Os custos aumentaram, a concorrência intensificou-se e os erros tornaram-se mais caros. Há menos margem para ineficiência e menos espaço para experiências medianas.
Estamos a entrar numa fase onde ganhar não depende de estar presente, mas de ser relevante. Onde não basta aparecer, é preciso corresponder.
Não estamos apenas a assistir ao crescimento do e-commerce. Estamos a assistir à sua profissionalização.


